Por Ita Portugal

Tenho medo. Tenho medo da acidez humana, que desacredita na bondade. Medo de quem duvida dos sentimentos mais simples e procura assim complicar a vida com uma coleção de teorias vazias e obsoletas.

Medo das pessoas que mastigam silenciosamente sua ira, enquanto olham com reprovação para os sonhos dos outros. Das mãos fechadas por avareza, e que desaprenderam a beleza da carícia. De ser tomada pelas dúvidas de quem fica sentado no caminho esperando a vida acontecer. De quem não comete erros, não corre riscos, não possui a ousadia dos dias coloridos que insistem em exagerar.

Tenho medo daqueles que se calam porque não sabem argumentar. Da grandeza do homem que insiste em diminuir todos os outros. Dos que escolhem pelo que agrada ao olho em oposição ao que a alma sente.

Tenho medo, muito medo de quem faz guerra por pouco e barulho pelos hiatos transitórios que só duram uma chuva. Dos que vão embora sem a decência de se despedir. Medo de quem muito sabe e pouco ensina. Dos que fazem a vida doer, encher de dúvidas, tornar-se um bocado de confusões. Dos que deixam ir tudo pelo ralo, pela distração ou indiferença. Das alegrias superficiais e opacas. De quem enterra as mágoas com receio de se perdoar. Das invasões de privacidade em nome de dois sentimentos imperfeitos chamados ciúme e insegurança. Tenho medo do sofrimento desnecessário, da falta de paciência, das lembranças doloridas, das esperanças amareladas.

Tenho medo de quem muito fala e não tem tempo para escutar. De quem oferece conselhos e depois abandona o processo de cura do outro. Medo daqueles que conseguem carregar o outro no peito, mas abandonam a alma na primeira valeta. De quem fala pela metade e esconde o principal.

Dos que, com medo dos sentimentos mais puros, caminham no contrafluxo, atropelando outros corações. Tenho medo das narrativas de amor recitadas em palco e ausentes do coração. Tenho medo dos atos falhos do homem que não disse para o que veio e não corrige suas emoções.

Ita Portugal

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