Por: Swami Vivekananda

Havia um homem pobre que desejava algum dinheiro e tinha ouvido dizer que se conseguisse agarrar um gênio poderia ordenar-lhe que lhe trouxesse dinheiro ou qualquer outra coisa que desejasse. Estava, portanto, muito ansioso para agarrar um gênio. Foi procurar um homem que lhe desse um gênio, e acabou por encontrar um sábio com grandes poderes. Solicitou seu auxílio e o sábio perguntou-lhe o que faria ele com um gênio.

– Desejo um gênio para trabalhar em meu benefício. Ensinai-me como agarrar um, senhor. Desejo isso mais que tudo.

Mas o sábio respondeu:

– Não vos preocupeis. Voltai para a vossa casa.

No dia seguinte, o homem tornou a procurar o sábio, e começou a chorar e a suplicar:

– Dai-me um gênio. Preciso de um gênio, senhor, para ajudar-me.

O sábio acabou por aborrecer-se, e disse-lhe:

– Tomai este talismã, repeti esta palavra mágica e o gênio virá, fazendo o que quer que lhe ordeneis fazer. Mas tende cuidado. Os Gênios são terríveis e devem ser mantidos constantemente ocupados. Se deixardes de dar trabalho ao vosso, ele vos tirará a vida.

O homem respondeu:

– Isso é fácil. Posso dar-lhe trabalho por toda a sua vida.

Então, foi à floresta, e depois de ter repetido longamente a palavra mágica, um enorme gênio lhe apareceu e disse:

– Sou um gênio. Fui conquistado por tua magia, mas deves manter-me constantemente ocupado. No momento em que deixares de me dar trabalho, eu te matarei.

O homem disse:

– Constrói-me um palácio.

O gênio respondeu:

– Está feito. O palácio já está construído.

– Dá-me dinheiro – falou o homem.

– Aqui está o seu dinheiro – replicou o gênio.

– Derruba esta floresta e constrói uma cidade em seu lugar.

– Está feito – disse o gênio – Mais alguma coisa?

Então o homem começou a se assustar, e pensou que nada mais poderia ordenar ao gênio, que fazia tudo num abrir e fechar de olhos.

O gênio declarou:

– Dá-me algo para fazer, senão eu te comerei.

O pobre homem já não encontrava ocupação para ele e estava apavorado. Correu, correu, e por fim encontrou o sábio e disse-lhe:

– Oh! Senhor, protegei a minha vida.

O sábio perguntou-lhe o que lhe acontecia, e o homem respondeu:

– Não tenho mais nada para ordenar ao gênio. Tudo o que eu lhe digo, ele faz num momento, e ameaça comer-me se não lhe der trabalho.

Nesse momento chegou o gênio, dizendo:

– Eu te comerei.

E ia comer o homem, que começou a tremer, suplicando ao sábio que lhe salvasse a vida. O sábio falou:

– Encontrarei uma saída. Olhai para este cão, que tem a cauda curva. Arrancai rapidamente a vossa espada e cortai-lhe a cauda, dando-a ao gênio para endireitá-la.

O homem cortou a cauda e, lenta e cuidadosamente, o gênio endireitou-a. Mal, porém, largou dela, eis que de novo se enrolou. Assim ficou durante dias e dias, até que se sentiu exausto e disse:

Nunca na minha vida tive transtorno igual. Sou velho, um gênio veterano, mas nunca cheguei a transtorno igual. Vou fazer uma combinação contigo: liberta-me, e poderás conservar tudo quanto lhe dei, com a minha promessa de que não te farei mal.

O homem ficou encantado e aceitou alegremente a oferta.

Este mundo é como a cauda enrolada de um cão, e as pessoas levam a lutar para endireitá-la durante centenas de anos. Quando largam dela, eis que de novo se enrola. Como poderia ser de outra maneira?

É preciso, primeiro, saber como trabalhar sem apego, para que não se chegue a ser um fanático. Quando soubermos que este mundo é como a cauda enrolada de um cão, cauda que jamais poderá ser endireitada, não nos tornaremos fanáticos. Se não houvesse fanatismo no mundo, ele progrediria muito mais do que agora. É um erro supor que o fanatismo pode impulsionar o progresso da humanidade. Pelo contrário, é um elemento que retarda esse progresso, gerando ódio e cólera, e levando os indivíduos a lutarem uns contra os outros, fazendo-os sentirem-se mutuamente antipáticos.

Pensamos que o que quer que possuamos ou façamos é a melhor coisa do mundo, e que o que não possuímos nem fazemos nada vale. Lembrai-vos sempre, portanto, da história da cauda enrolada do cão, de cada vez que tiverdes tendência para vos fanatizar. Não precisai preocupar-vos ou ficar insones por causa do mundo, ele seguirá sem vós.

Quando tiverdes evitado o fanatismo, e só então, trabalhareis bem. O homem de cabeça bem equilibrada, o homem calmo, de bom julgamento e nervos frios, dotado de grande capacidade de simpatia e amor, é o que faz bom trabalho, e assim fazendo, faz bem a si próprio. O fanático é insensato e não tem simpatia. Jamais poderá endireitar o mundo, nem se tornará puro ou perfeito.

(Texto extraído do livro “As Quatro Yogas de Auto-Realização” – Swami Vivekananda – Ed. Pensamento.)

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