Confira parte da entrevista de um ex-ateu que é visto como um guru de autoajuda por muitos críticos, ele fala de suas teorias sobre transtornos emocionais, sobre a pressão aplicada nas crianças modernas

Numa rotina atribulada, como podemos organizar as emoções?

Tive o privilégio, e falo com humildade, de desenvolver o primeiro programa mundial de gestão da emoção, que publiquei no livro Gestão da Emoção. Gestão da emoção é um conjunto de ferramentas que o eu, que representa a consciência crítica e a capacidade de escolha, deve ter para que possamos gerenciar, aprofundar, estabilizar e enriquecer a emoção.

Sem gestão da emoção, ricos se tornam miseráveis, casais começam o relacionamento no céu do afeto e o terminam no inferno dos atritos, jovens asfixiam a criatividade, e crianças perdem a mais importante fase da vida, que é a infância.

O senhor constatou isso em seu consultório?

Fiz mais de 20 mil atendimentos psiquiátricos e psicoterapêuticos e desenvolvi uma das poucas teorias mundiais sobre o funcionamento da mente, a construção dos pensamentos, a formação do eu como líder da nossa própria mente e a gestão da emoção.

Então, baseado nessa teoria, nesses 20 mil atendimentos e fundamentado em ideias e conhecimentos de outros pensadores, desenvolvi esse programa. Quais os comportamentos que geram a falência da emoção? Sofrer por antecipação, ruminar perdas e frustrações, detalhismo, o que é diferente de observar detalhes, mas uma característica doentia, perfeccionista, que supervaloriza coisas irrelevantes e desvaloriza o essencial.

Além disso, a necessidade neurótica de mudar os outros. Ninguém muda ninguém, temos o poder de piorá-los, não de mudá-los. O agiotismo da emoção é outro comportamento extremamente atroz, que esgota os recursos naturais do planeta emoção.

Mas todos esses comportamentos que o senhor citou não são atitudes naturais? Sofrer por antecipação, por exemplo, não é uma forma de se preparar para frustrações?

Aí é que está. Esses comportamentos, quando são intensos, consistentes e diários, não são naturais. Todos os povos, todas as culturas, principalmente nessa sociedade moderna e digital, esgotam dramaticamente o cérebro e provocam uma série de sintomas. Por exemplo, toda vez que a pessoa acorda cansada, ela está com esgotamento cerebral, está com uma mente hipertensa, que furta a tranquilidade, a serenidade e a capacidade de se refazer.

Dores de cabeça e musculares, bem como taquicardia e queda de cabelo, são sintomas que representam o grito de alerta de bilhões de células expressando que o cérebro está esgotado. Outro sintoma importante que evidencia os limites entre comportamentos previsíveis e comportamentos doentios: irritabilidade e baixo limiar para a frustração.

Toda pessoa que tem dificuldade de lidar com contrariedades nos focos de tensão indica que o eu dela não está sendo gestor de sua própria emoção. Isso gera a labilidade emocional: em um momento, a pessoa está alegre, noutro, profundamente angustiada, noutro, tranquila, depois, tem reações explosivas.

Essa dificuldade de lidar com frustrações é frequentemente endereçada às novas gerações. Os jovens estão mais ansiosos?

A situação é gravíssima. Tenho alertado sobre o assassinato coletivo da infância. Todos somos contra o trabalho escravo, de crianças que trabalham em minas, por exemplo, sujas, sem direito de estudar, de brincar, de ter a formação da personalidade saudável.

Mas o que nós não denunciamos no mundo todo é que há um trabalho intelectual escravo legalizado nas famílias classe média, classe média-alta e ricas. Milhões e milhões de famílias atolam seus filhos em tantas atividades que eles não têm tempo de ser crianças, de ter aventuras na adolescência.

Estão gerando, coletivamente, a síndrome do pensamento acelerado. Uma criança de sete anos de idade tem, provavelmente, mais informação na atualidade do que o imperador tinha no auge de Roma. Isso não é suportável, esgota o cérebro.

Se você for nas escolas particulares e perguntar quem acorda cansado, ficará impressionado. Se perguntar quem tem dores de cabeça e dores musculares, vai às lágrimas. Os psicólogos, os educadores acham que está tudo correto com seus alunos, mas eles estão todos adoecendo.

O senhor aplica para si mesmo o que repassa aos outros? Em que circunstâncias percebeu que essas ferramentas ou atitudes trariam essas transformações?

Sim, aplico, claro. Há pessoas que são agiotas da emoção, característica que esgota o planeta cérebro. O que é um agiota financeiro? É aquele que empresta dinheiro e cobra juros distorcidos. E o agiota da emoção? É, por exemplo, aquele pai que se doa e cobra demais na fatura, que quer reconhecimento imediato de sua mulher, que não suporta ser minimamente contrariado.

Esse tipo de agiota causa um desastre nas relações interpessoais, por mais que tenha boas intenções. E o autoagiota da emoção? Toda pessoa que se cobra muito é ótima para uma empresa, mas é um carrasco de si mesma.

Mas alguma coisa ocorreu para que o senhor “virasse a chave”?

No segundo para o terceiro ano da faculdade de Medicina, passei por uma crise emocional importantíssima e descobri que as lágrimas que não choramos são mais penetrantes do que aquelas que escorrem pelo rosto.

Passei pelo vale sórdido de uma dor emocional e, a partir daí, descobri que ou a dor me constrói ou ela me destrói. As dores, as perdas, as frustrações só se tornam ricas quando se aprende a gerir minimamente a emoção. Por exemplo, quando você dá um choque de lucidez a um pensamento perturbador, quando dá risada da sua estupidez, pelo menos daquilo que é passível de se dar risada.

Tudo isso é importante. Em que universidade, seja na graduação ou na pós-graduação, os alunos são ensinados a ter controle da própria história? Na verdade, a sociedade virou um manicômio global.

TEXTO DEBruna Porciúncula
FONTEZhnotícias
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