Madeira, cerâmica, isopor, garrafas, chaves, tubos de PVC. Estes e outros materiais reaproveitáveis se transformam em instrumentos musicais que dão vida a sons e acordes e ainda promovem a inclusão. Esse trabalho acontece há nove anos na Associação Pestalozzi em Campinas, onde é desenvolvida a oficina de musicalização.

Realizada duas vezes por semana, a atividade envolve grande parte das 120 pessoas de 3 a 30 anos que são atendidas pela instituição, que é parceira da Fundação FEAC. O público atendido são crianças, jovens e adultos com deficiência múltipla, intelectual e síndromes genéticas com diversos graus de severidade.

O objetivo desta ação, assim como todas desenvolvidas pela instituição, é promover a educação e a inclusão social da pessoa com deficiência.

Com experimentos e muita criatividade, o professor e compositor Ricardo Botter Maio promove encontros que fazem a alegria das crianças, adolescentes e jovens atendidos pela entidade. A oficina chama atenção por ser composta somente por instrumentos criados a partir de materiais recicláveis.

Ao invés de serem descartados, são transformados em inusitados instrumentos musicais com sons e acordes que tocam a inclusão.

Tocando sons

Carolina Sellin Sandroni, diretora geral da Pestalozzi, define como é o olhar do educador social para os momentos de musicalização com os atendidos. “O Ricardo vê som em tudo. Ele está em uma constante busca por notas e acordes que sejam os mais adaptados para que os participantes da oficina os executem”, afirmou.

Segundo a diretora, a musicalização na Pestalozzi passou a fazer parte, desde o início do ano, da restruturação pedagógica da instituição que presta atendimento na área de educação especial.

A entidade agora trabalha baseada nas inteligências múltiplas: linguística, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalística e musical. Apesar de diferentes, elas são complementares e se bem trabalhadas, dão resultados positivos no desenvolvimento.

Carolina explicou que cada sala da instituição foi transformada em espaços que representam os distintos tipos de inteligência múltipla. [Durante o período da manhã, os atendidos passam por todas as salas a cada 40 minutos.

Elas têm cheiros e cores diferentes para que percebam que estão em ambientes diversos. No período da tarde, o atendimento é feito pelos profissionais de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

O resultado da nova dinâmica de atendimento da instituição foi menos choro e mais atenção e foco. Para a equipe de profissionais que atua na Pestalozzi, conseguiu-se ampliar o olhar para novas possibilidades de desenvolvimento e estímulos em cada um dos atendidos.

A musicalização acontece estrategicamente entre as atividades matutinas e as vespertinas para despertar o interesse dos atendidos. “A música toca as pessoas e desperta sentimentos bons, como a alegria.

Para o nosso público, que tem um alto grau de limitação por conta da severidade das deficiências múltiplas, a música faz aflorar todos os sentidos e traz vários benefícios, como o desenvolvimento motor, cognitivo, desperta a atenção, concentração, o ritmo, a disciplina e várias outras habilidades”, explicou Carolina.

O início do som

Ao perceber todos os inéditos objetos musicais do ambiente, é inevitável que se pense em como tudo isso teve início. Segundo Ricardo, a ideia de construir instrumentos feitos com restos de peças e materiais recicláveis surgiu pela falta de dinheiro para comprar os instrumentos tradicionais.

Tudo começou no Instituto de Pedagogia Terapêutica Professor Norberto Pinto, onde Ricardo atua desde 2005 e lá deu início a um grupo de percussão. A experiência foi levada para a Pestalozzi em agosto de 2008, e de lá para cá, o músico amplia e aprimora cada vez mais a criação de instrumentos e de música com os atendidos.

“Para mim é uma experiência maravilhosa experimentar, conviver e compartilhar conhecimento com esses jovens, porque posso colocar em prática e fazer acontecer a música. Procuro criar instrumentos que os atendidos possam executar com facilidade”, explicou Ricardo.

A musicalização faz sucesso dentro e fora da instituição. Constantemente são realizadas apresentações e o trabalho do grupo de música já rendeu a gravação de dois CDs. O primeiro, em 2013 com o título “O início de tudo”, tem 13 faixas. O segundo já tem as 14 faixas gravadas, mas aguarda apoio financeiro para que seja feito o encarte do CD.

As músicas gravadas são relacionadas com a natureza, estações do ano, cores, beleza, entre outros assuntos do cotidiano. “Procuro sempre compor músicas que posteriormente possam ser repercutidas pelos outros educadores nos diferentes espaços da entidade”, explicou Ricardo.

Segundo Natália Valente, assessora social da FEAC, a atividade desenvolvida pela entidade destaca-se porque consegue, por meio de materiais que seriam descartados, transformá-los em instrumentos musicais, desenvolvendo uma proposta de trabalho realmente eficaz e lúdica no atendimento às pessoas com deficiência.

Carinho e resultado

Entre os participantes do grupo de música, a alegria e prazer em tocar os instrumentos é nítida e contagiante. De acordo com Ricardo, no início dos encontros, alguns atendidos não tinham ritmo nem mesmo para tocar o triângulo. Hoje, eles já têm uma evolução musical que permite que toquem instrumentos mais elaborados, como os que compõem a percussão.

“Ritmos e batidas que eu tinha que ficar corrigindo, hoje não preciso mais. Eles prestam muita atenção, são determinados, focados e alguns tocam muito bem”, avaliou o compositor. Com os atendidos, o educador também experimenta a construção, em conjunto de alguns instrumentos mais simples.

As notas de cada instrumento são sempre cuidadosamente lapidadas por Ricardo, que procura o tamanho e material correto para que se chegue à nota desejada.

A pedagoga Sandra Damiana Netto faz questão de lembrar da reação dos familiares quando o grupo musical começou a ser desenvolvido na Pestalozzi. “Quando o Ricardo começou, as mães ficaram curiosas e receosas de que os filhos poderiam não conseguir tocar os instrumentos.

Esse sentimento durou apenas até a primeira apresentação do grupo, quando todos viram que eles eram capazes e que poderiam acreditar na evolução que a música traz para cada um”, contou.

O empenho e dedicação de todos também é motivo de orgulho entre os educadores da entidade. “Os ensaios são constantes e o ritmo é treinado à exaustão, porque é o mais desafiador e a maior dificuldade dos atendidos.

Mas todos aqui sabem que ninguém é perfeito. Se sair errado, sem problemas, vamos continuar a treinar”, afirmou a educadora.

Para Sandra, as emoções positivas e o prazer que a música proporciona também são essenciais para o desenvolvimento e qualidade de vida dos atendidos. “O Ricardo tem o cuidado de compor músicas que são possíveis de serem cantadas pelo grupo, elas são adequadas assim como os instrumentos que produz, e quando cada um percebe que consegue tocar, cantar, ou simplesmente rir ou gritar acompanhando as músicas, a felicidade deles é imensa e para nós educadores, isso é o mais importante. De quarta e quinta, que são os dias do grupo de música, ninguém falta, porque eles já associam o Ricardo com o dia da semana”, concluiu.

Os bons resultados extrapolam as salas da instituição e chegam até as casas dos assistidos. O retorno das famílias é sempre baseado no quanto os atendidos se desenvolveram e se tornaram mais musicais, o que acaba impactando no amadurecimento, responsabilidade, atenção e concentração. “As famílias são muito agradecidas pelo trabalho desenvolvido aqui na instituição”, disse Sandra.

Satisfação

A cada música que começa a ser ensaiada, os integrantes do grupo mostram um semblante sorridente e concentrado. Ao mesmo tempo em que estão atentos, eles se divertem e quando não tocam instrumentos, acompanham como podem. Alguns dos educandos se transformam, como Ligia, que à sua maneira, expressa todo seu entusiasmo e potencial, em especial quando Beleza Mundial – uma melodia que fala de empoderamento e autoestima – toca. “A primeira vez que tive contato com a música foi aqui. Gosto muito”, disse.

Sirlene Aparecida Galdina começou tocando triângulo e hoje domina a percussão. A alegria dela com os movimentos ritmados é notável. “Gosto do som do tambor e presto atenção para entrar logo no ritmo”, ensinou.

E entre marimbas fabricadas com cerâmica e madeira e muitos outros instrumentos, Ricardo vai construindo possibilidades que de sonhos, se transformam em realidades. O mais recente instrumento criado foi uma rabeca, feita com madeira, caixa de isopor, haste violino, cordas de guitarra, pedacinhos de concreto, elásticos. A afinação é cuidadosamente feita pelo compositor para fazer a alegria de quem o toca.

O próximo plano, além da viabilização do segundo CD da turma, é continuar experimentando novos sons e instrumentos e ensinar os atendidos a executarem melodias musicais. “Eles ainda não conseguem, mas eu acredito que um dia vamos chegar lá”, disse Ricardo. Treinando, acreditando e experimentando, essa turma vai longe.

Saiba mais sobre a Associação Pestalozzi de Campinas.

TEXTO DEIngrid Vogl
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