É elucidativo o que o escritor José Saramago escreveu (transcrito logo abaixo). De forma clara e concisa, ele não deixa margens à dúvida: a violência contra as mulheres é um problema dos homens. Tânia Pinafi afirma que “A violência contra a mulher tem raízes profundas que estão situadas ao longo da história, sendo, portanto de difícil desconstrução”. Ricardo Westin e Cintia Sasse citam a antropóloga brasileira Lia Zanotta para esclarecer: “[…] o controle do homem sobre a mulher persiste na memória social”. Se este é um processo histórico e cultural, significa dizer, em outras palavras, que é uma construção humana, mais especificamente: uma construção do homem; e se foi construído, pode sim ser desconstruído.

Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que creem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume é certo que pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que o homem tem que resolver.

De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres que saíam à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo.

04. Somayeh.jpg Esta é Somayeh Mehri (29 anos) e sua filha Rana Afghanipour, de apenas três anos. Uma noite, em junho de 2011, o marido e pai, Somayeh Amir, derramou ácido em Somayeh e Rana enquanto elas dormiam (ele fez tal atrocidade depois de Somayeh pedir o divórcio, devido às constantes agressões e ameaças do marido). Os seus corpos foram severamente queimados. Somayeh perdeu a capacidade de ver e Rana perdeu um de seus olhos. Ambas ainda precisam realizar inúmeras cirurgias. O pai de Somayeh vendeu sua terra, a fim de arrecadar dinheiro para pagar as despesas médicas; outros aldeões também ajudaram, assim como o governo. A ASTI parece ser uma instituição séria que trabalha contra este problema. Quem quiser conhecer e ajudar, acesse o link: http://www.acidviolence.org/

A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe de lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio.

É o problema das mulheres, diz-se, e isso é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável covardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica.

Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e á violência. Direito de usar o que consideravam seu. Este novo ato de violência de gênero, mais os que se produziram neste fim de semana, em Madrid uma menina foi assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante de sua filha de seis anos, deveriam ter feito sair os homens à rua.

Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de gênero, como resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.

TEXTO DE J. DOUGLAS ALVES
FONTEOBVIOUS
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