Vivemos tempos onde é proibido sofrer. Entenda-se sofrer como o incômodo emocional não palpável.
Quando alguém tem câncer, por exemplo, há uma solidariedade unânime quanto ao estado de profunda tristeza e desamparo que acomete essa pessoa.

Quando alguém tem uma perna amputada há uma concretização da mutilação.
Sofrimento fisicamente exposto ainda está permitido. Digo “ainda” porque do jeito que a coisa anda, a Alice já perdeu todas as maravilhas para esse mundo em que estar diuturnamente feliz é uma obrigação torturante.
No entanto, quando você emocionalmente sofre, sabe-se-lá-porquê, e ninguém quer muito saber, a verdade é essa, esse sentimento de ausência de concretude visual do sofrimento é tudo menos legítimo.

Costuma-se dizer coisas a seu respeito que seriam construtivas se não fossem cruéis. Diz-se o quanto você é talentosa, bonita, esperta, trabalhadora, interessante, guerreira, essa palavra é slogan, inclusive. Enfim, criam-se muitas qualidades a mais das que você, com o juízo em dia, jamais poderia consentir como suas.
Falam “francamente” de você, mas, nada que lhe diga respeito na verdade.

O fato é que sofrer é incômodo não apenas pelo sofredor, geralmente que passa por uma crise existencial de múltiplas possibilidades e razões, mas, também para o espectador que o vê e percebe como alguém que sofre, supostamente sem razões.

Lidar com a dor emocional não é fácil.

Não há uma fratura exposta. Não há um remédio que cure em sete dias respeitados os ciclos das bactérias, vírus e afins.

Há uma estranha e comum sensação de inadequação onde a letra da música faz um absurdo e concreto sentido: “Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”.
Assim sente aquele que está doente da patologia invisível, que é a dor emocional.
Não por acaso, cada dia mais a indústria farmacológica se debruça em descobrir medicações que abrandem esses desconfortos.

Se, por um lado, é o caminho da medicina, por comprovar que há razões químicas em alguns casos; por outro, há uma demanda enorme da sociedade em geral de não acolher, sequer aceitar, o sujeito momentaneamente deprimido.
Faça o teste. Telefone para seu trabalho e diga que está com a perna quebrada. Sem nenhuma angústia o seu chefe vai concluir com clareza que você não pode andar. Que ali há uma razão limitadora de locomoção. Simplesmente não há como, de imediato pelo menos, você se conduzir no cotidiano. A paralisia é visível, mesmo que não seja inviabilizadora. Mas, é respeitada.

Agora, faça o mesmo teste. Telefone e diga que está incapaz de se conduzir. Que suas pernas não obedecem à condução natural, que acordou sem rumo e mal pode pensar em fazer o itinerário por que, legitimamente, não sabe que caminho tomar.

Tudo será feito, na maioria dos casos, para lhe demover desse sofrimento.
Doença emocional não é respeitada porque a sociedade é tarja preta. Ela te induz ao entorpecimento.

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Cláudia Dornelles
Cláudia Dornelles. Nascida no Rio de Janeiro, filha de mãe carioca e pai gaúcho, foi criada algum tempo também no Sul e viveu fases bastante distintas em sua vida. Infância farta com seus pais e irmã mais nova. Uma adolescência difícil. A juventude de luta para sustentar a mãe e irmã, após o falecimento de seu pai. E a fase adulta de mais lutas, mas também muitas conquistas. Cláudia Dornelles, escritora e administradora da página Alma No Varal.

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