Mensagem de uma leitora para Carpinejar:

“Gosto muito dos teus escritos em guardanapos. Mas esta época de pandemia,ficar vendendo teu livro. Acho fora de propósito.”

Minha leitora,

Creio que passou pela senhora um detalhe importante: eu sou escritor, vivo de literatura, é a minha profissão. Vou ficar envergonhado de sustentar a minha família?

Escreverei em qualquer tempo, sobre todos os tempos. Não há como arrancar a caneta das mãos. Não existe como me demitir.

Fora de propósito é fingir que a doença não é séria, é a alienação diante da agonia do sistema de saúde, é negar a ciência e o conhecimento, é subestimar o poder regenerador e terapêutico da literatura – esse remédio emocional para entender o nosso lugar no mundo.

Talvez tenha pensado que era o meu passatempo, um hobby, um lazer. Que faço textos nas horas vagas. Por diletantismo. Por ócio. Para me desestressar. Que tenho outro ofício mais nobre, já que escritor não pode ser considerado uma profissão para a senhora.

Ainda não alcancei o seu raciocínio: artistas não devem vender seus produtos na pandemia? Devem morrer de fome? É isso? É preciso esperar a crise passar? Temos que avisar cineastas, pintores, músicos, atores imediatamente.

Na sua ótica, é um atentado constrangedor oferecer cultura nesta época. Não cai bem. Mesmo que seja reflexões sobre o próprio isolamento.

Acha que é o momento ideal para defender o analfabetismo? Não podemos mais ler, nem ouvir canções, nem assistir filmes, nem nos maravilhar com quadros?

Além do conteúdo gratuito nas redes sociais, venho me preocupando com a falta de recursos na quarentena. Eu disponibilizei por dois meses o meu livro “Felicidade Incurável” – foram mais de 25 mil donwloads. Também deixei gratuito por 45 dias o audiobook do “Cuide dos pais antes que seja tarde” – mil e quinhentos leitores ouviram. Fiz uma ação com entrega de bonecos para os filhos dos médicos no Hospital Conceição de Porto Alegre (RS). A partir de um convênio com a Fundação Marcopolo, serão distribuídos mil exemplares de “Colo, por favor!” aos colaboradores da empresa em Caxias do Sul (RS). Dez por cento dos direitos autorais do meu novo livro adquirido na Livraria da Vila vai para o Hospital de Clínicas de São Paulo no combate ao coronavírus.

Estamos aprendendo a colaborar coletivamente. São várias lutas. Com certeza, alguma permanece à sua espera.

Cada um faz a sua parte. Ou melhor, a sua arte (sinto orgulho dela).

Esse é o meu guardanapo que dedico a senhora. Espero que goste.

Abraço
Fabrício Carpinejar

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