Por: Daniele Abrantes

De repente, dentre tantas pessoas no mundo, você encontra aquela pessoa que te faz sorrir, não importa o quão idiota a conversa seja.

Como explicar aquela sensação de intensidade ao depararmos com alguém especial? Encontros acontecem toda hora, conexão, é algo raro. Por vezes, ao sentirmos atração física por alguém, pensamos encontrar a pessoa “ideal”. Mas é só uma impressão. As conexões mais profundas não se estabelecem nem sempre no instante, mas na atração mental que nos faz fugir do raso, e mergulhar no lago profundo que vai além da representatividade física.

Quando achamos alguém que nos atraia mentalmente, experimentamos a conexão de alma.

Daí, passamos a interceptar e traduzir toda a aura de mistério que envolve o outro, pois estamos absortos em sua essência. É como se passássemos a “ler” a mente da pessoa, ainda que esteja a léguas de distância. Pode ser num tom de voz, num comentário, numa música, numa escrita, num breve cruzar de olhos, na forma como se senta. Não é surpresa , em casos de relacionamentos longos e duradouros, acontecer o seguinte fato: Duas pessoas, ambas de lados opostos numa festa, num ambiente com música, muita gente conversando, de repente cruzarem os olhares e ficarem se encarando ao experimentarem, simultaneamente, a sensação de que o tempo parou, no instante em que suas essências se encontraram. Existe sim “paixão à primeira vista”, mas “amor”, leva tempo. Exige amadurecimento espiritual.

É aí que podemos ser traídos por nossa mente. Vivemos uma era onde o imediatismo ultrapassa todos os passos dos relacionamentos. A era digital, com seus diversos programas de encontros, certamente facilita a aproximação e promove encontros bem-sucedidos, e isso, é um fato. A web minimiza distâncias à velocidade da luz. Como é gostoso “matar” a saudade de um rosto querido, não é mesmo? E saciar a nossa curiosidade, exercer o voyerismo tão comum a todos nós, ao stalkear um perfil de alguém em que estamos interessados, até mesmo para saber detalhes pessoais sobre estilo de vida e forma de pensar do outro. Até para sabermos se temos pontos em comum para o tal do “match” perfeito. Sem sombra de dúvida, é um grande adianto.

Mas o que muita gente esquece, é que o “Web mundo “é uma vitrine onde expomos apenas o que temos de mais atrativo sobre nós. Então você vai usar estratégias de marketing pessoal para tornar a sua vida mais interessante aos olhos do outro. Num mundo cada vez mais competitivo, com pessoas atraentes, bem-sucedidas, etc… A competitividade é de fato bastante acirrada. Então, como dizemos se algo nos é agradável aos olhos? Através dos likes. Na nossa percepção, quem dá um “like” é porque gostou do que viu. Certo? Foi no stories, curtiu uma publicação, uma foto, enfim. Logo, pensamos: Huuumm….tá me querendo.

Será mesmo? Às vezes, é por educação. Mas também pode ser que não. Como saber?
Quando há conexão mental com o outro, sentimos uma sensação de bem-estar ao sabermos algo sobre a pessoa, ainda que, aos olhos de outra, pareça irrelevante. Começam a ocorrer sincronias. A pessoa e você podem postar coisas semelhantes num limite curto de tempo, por exemplo. Você pode estar pensando na pessoa e encontrar com ela na rua num horário que normalmente não encontraria. Se vocês forem pessoas que já tiveram algum tipo de contato mais pessoal, mais íntimo, e no momento não estejam mais tão próximos, é comum ler algo que a pessoa postou e imediatamente “sentir” o sentimento que a pessoa sentiu ao escrever aquilo. É como se você a “visse” no momento em que passou por aquela determinada experiência.

Quando você está numa conexão verdadeira, você não encontra palavras para descrever o que sente sobre a pessoa para outras pessoas. Porque está além da sua própria concepção. Quando duas pessoas experimentam esta conexão, algo muda na vida de ambas. É tipo um novo sopro de vida. De repente, você se sente estagnado e depois, num passe de mágica, você se torna uma nova versão de você, versão turbinada. Como se entrasse no Delorean DMC-12 do filme “De volta para o futuro” e encontrasse o seu eu do passado e não se visse como você mesmo. Tem uma passagem do filme “Frances Há” que diz: “É isso que eu quero em um relacionamento, o que meio que explica por que estou solteira agora. É difícil de explicar. É uma coisa quando você tá com alguém e você ama a pessoa e vocês sabem disso. Vocês estão juntos, mas é uma festa, sabe? Os dois estão conversando com pessoas diferentes. Você tá lá sorrindo e olha para o outro lado da sala e vocês trocam olhares. Mas não porque são possessivos ou que seja algo sexual, mas apenas porque aquela é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, mas só porque esta vida vai terminar. E é esse mundo secreto que existe bem ali em público, mas imperceptível, que ninguém vai ficar sabendo. É tipo como dizem, uma outra dimensão que existe ao nosso redor, mas não temos a habilidade de notar. Sabe? É isso. É isso que quero de um relacionamento. Ou da vida, eu acho. Amor. Parece que tô viajando, mas não tô…”

Esta citação da personagem exemplifica com maestria como é se sentir conectado a alguém. Algo que decreta algo tipo: Não sei para onde os nossos caminhos irão nos levar, nem quanto tempo demore, mas eu sei que é com você que eu vou ficar até o final dos meus dias.

Porém, nossa mente pode nos pregar peças, e se nós não tivermos o autoconhecimento necessário, andaremos perigosamente na linha da idealização. A carência, é nossa pior inimiga. Ela cria projeções sobre o outro que não correspondem à realidade. Como saber se o outro corresponde às nossas expectativas? Simples. Repare não no que é dito, mas no que é vivido. Parece clichê, mas é fato que atitudes, falam mais do que palavras. Falam não, gritam! E no megafone ainda. Há coisas explicitamente claras que entregam todo o esquema por trás da aparência “ receptiva” de alguém.

A pessoa diz que te adora, mas nunca tem tempo para te ver. Fala rapidamente com você, e se despede dizendo que tem outra coisas para fazer, mas continua online. Demora dias para te responder, você sempre inicia as conversas, enfim. Uma gama de sinais que evidenciam nitidamente sobre o perfil da pessoa. Como entender que, neste caso, não é recíproco? Embora você se sinta conectado a alguém, você se doa pelos dois. Você demanda grande parte de tempo a se dedicar ao outro. A exaustão mental confunde o seu estado emocional e então nasce a idealização, como mecanismo de defesa psicológico, sublimação. que “liberta” o indivíduo de uma angústia. Significa que um objeto (pessoa, animal, objeto, convicção, atitude) adquire um valor na perfeição absoluta ou na desilusão total.

O termo foi nomeado pelo “Pai da Psicanálise”, Sigmund Freud, no seu artigo de 1914 intitulado «Narcisismo: Uma Introdução», e diz respeito à ação de um indivíduo em engrandecer um objeto sem alteração da sua natureza. O autor defende também que “a identificação a objetos idealizados contribui para a formação e enriquecimento da pessoa, a partir das instâncias ideais Ideal do Ego e Ego Ideal. Está ligado ao nascimento e às primeiras relações, sendo utilizado ao longo da vida, modificando a energia que é mobilizada para o objeto. “

A idealização dos pais, por exemplo, também é um fator que influencia e intrinsicamente faz parte do desenvolvimento das instâncias ideias. Poderá ser um componente de saúde mental, e sem recurso à realidade, poderá ter um caráter patológico.

Ou seja, NÃO É REAL! A pessoa que admiramos nos mostra uma parte dela que nos agrada, nossa carência afetiva guarda instantaneamente esta sensação de aconchego, e esta passa a ser o nosso “par ideal”. É aquele caso típico da pessoa que todos falam que não presta, que não te dá valor, e te dá sinais claros de total desvalorização e desinteresse e você romantiza suas ações justificando a falta de interesse do outro com “falta de tempo”. Na conexão amorosa real, há troca, reciprocidade. Na idealização, há apenas você e você mesmo na estrada de tijolos amarelos que leva ao mágico mundo onde vive o Mágico de Oz. Mas é um mundo fictício. Tanto que o filme utiliza da belíssima alegoria dos sapatinhos vermelhos de Dorothy na representatividade à volta ao lar. O conforto ao retorno da coragem em se enfrentar a realidade, por mais dura que seja.

Se você vive um amor de contos de fadas, saiba que ele não existe, bata os sapatinhos três vezes e volte ao racional, tome as rédeas da sua vida, e crie sua realidade de forma saudável . Com a mente fortalecida e a esperança renovada, volte a si mesmo e repita: “Não há lugar como a nossa casa’. O Universo estará dizendo ; Bem-vindo à compreensão do que é o Amor verdadeiro.

Finalizo com um poema da Psicóloga e querida amiga, Marta Mieko.

Real/Ideal
“ O ideal é perfeito.
O real é o que é.
O ideal é certo;
O real é uma surpresa.
O ideal é encantado.
O real é um fato.
O ideal é um sonho.
O real é concreto.
O ideal é controlado.
O real acontece.
O ideal é criado.
O real existe.
O ideal é ilusão.
O real é verdade.”

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