O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues escreveu muito sobre essa impossibilidade de felicidade e amor andarem juntos.

Sei que filósofos de plantão dirão que existem formas e formas de amor e felicidade. Esse método de apontar para a instabilidade semântica (“vários significados para uma mesma palavra” em idioma dos mortais) é clássico na filosofia.

De fato, muito útil para aprofundar uma reflexão, principalmente na sua espessura histórica. Mas, às vezes, pode simplesmente paralisar quem quer pensar, diante de tantas possibilidades de significado para uma mesma palavra. Já disse antes que, nos limites semânticos dessa confissão, amor é quase sempre amor romântico, nas suas grandezas e nas suas misérias.

Quanto à felicidade, faço minhas as palavras do filósofo Pascal (século XVII) quando ele fala sobre o tempo: às vezes, quando se quer definir muito algo percebido como evidente pelo senso comum, como o tempo, mais se confunde o entendimento do que o esclarece. Não defino o amor ou a felicidade em momento algum nesta coleção de ensaios. Parto sempre da experiência comum dos humanos sobre o amor e sobre a felicidade, mesmo que precisando, muitas vezes, situá-la no tempo e no espaço.

São muitas as razões para se responder negativamente a essa pergunta. A primeira delas é o acúmulo de narrativas trazendo a infelicidade como final delas. Mas não quero fazer crítica literária aqui. Felicidade e amor parecem se excluir porque, antes de tudo, a vida é feita de protocolos para conter e organizar os afetos.

Podemos chamá-los de protocolos dos afetos. E a felicidade é protocolar. O que é um protocolo do afeto?

Um protocolo do afeto garante, na medida do possível, uma vida tranquila e com algum sentido. Morrer cercado de netos, filhos e amigos é a prova de que você viveu como se deve. Conseguiu, na duração longa dos anos, a manutenção dos vínculos a sua volta. Cabe bem numa foto. Mas a ironia aqui não é a irmã gêmea da idiota crítica contemporânea a toda forma de vínculo afetivo institucional. Sabemos que qualquer vida real é maior do que qualquer crítica a ela.

A ironia aqui se deve ao fato de que uma foto dessas pode ter sido construída ao longo de vários anos de infelicidade de muitos que posam para ela. A ironia maior é que o preço dessa infelicidade é considerado, pela maior parte das pessoas, um preço justo pela segurança e pela retidão ética para com esses mesmos vínculos congelados na foto.

Felicidade numa vida civilizada é, na verdade, uma felicidade protocolar com gosto de chá. Calmante. Duradoura e sem arroubos. Por isso, não se pode amar e ser feliz porque a felicidade, na maioria dos casos, é uma felicidade que visa pôr sob controle a vida afetiva. Esse é o ordenamento dos afetos mencionado acima.

Entretanto, um certo entendimento desses protocolos mudou ao longo dos últimos anos, principalmente no que tange às mulheres. Como consequência do processo de emancipação feminina, um discurso do direito ao “prazer” na vida autoriza, em alguma medida, as mulheres a serem Annas Kariêninas em nome da emancipação do desejo feminino. Portanto, está dentro do que se pode considerar uma fidelidade justa (logo, ética) ao próprio desejo da mulher, visto como tendo sido, até muito recentemente, esmagado pela sociedade patriarcal por milhares de anos.

Digo em alguma medida porque grande parte da sociedade, incluindo as próprias mulheres, ainda fala mal de Annas Kariêninas, principalmente se não forem suas amigas a traírem o marido em nome do amor. Quanto aos homens, a infidelidade continua sendo vista como indevida e canalha. Seu desejo de amor continua sendo visto como justificadamente esmagado pela norma social. Um homem casado até pode transar por aí, mas, no caso de se apaixonar de fato e abandonar a mulher e os filhos por uma “mais novinha”, a norma social não justificará seu ato dizendo que ele se emancipou contra o esmagamento de seu desejo. Restará a ele apenas o título de canalha.

O surgimento do amor romântico num contexto de protocolos sociais dos afetos costuma gerar instabilidade porque deixa suas vítimas insatisfeitas com hábitos prévios. Mesmo situações dramáticas envolvendo filhos podem ser atropeladas pelo desejo amoroso. Lugares frequentados, finais de semana, férias, tudo pode se dissolver na agonia de estar com a pessoa amada que se encontra fora desses protocolos. Uma das características da doença do amor, descrita desde a Idade Média, é o esvaziamento de significado de tudo que não “servir ao próprio amor”, como diziam os medievais.

E quando colocamos o amor no espaço desses protocolos, como no caso do casamento, na maioria das vezes, o cotidiano acaba por matá-lo. Por quê? Haveria uma contradição essencial entre amor e cotidiano? Não necessariamente, mas a sabedoria popular cética e irônica parece crer que o cotidiano (leia-se casamento) destrói o amor. A própria ideia de que exista um cotidiano que não mate o amor parece uma dentre outras utopias que nunca dão em nada. Voltaremos à razão dessa descrença na existência de um cotidiano de amor em algum ensaio a seguir.

Assim como à razão da crença na possibilidade da existência desse cotidiano de
amor.

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