LOCKDOWN DA ALMA

Fabrício Carpinejar

Eu acredito na letalidade do vírus.

Eu acredito nas mais de cinquenta mil mortes.

Eu acredito nas mil mortes por dia pelo coronavírus.

Eu acredito em mais de um milhão de infectados.

Eu acredito na dor do luto dessas famílias, que levaram um parente ao hospital jurando que ele sairia dali.

Eu acredito na impotência que é perder alguém na pandemia e não ter o direito de reunir os amigos no enterro.

Eu acredito no esgotamento físico e emocional dos profissionais da saúde, com as UTIs lotadas.

Eu acredito que ainda seguimos longe da normalidade.

Desde o primeiro dia da quarentena, pratico o lockdown em minha alma. Porque eu acredito que não é exagero, não é alarmismo, as estatísticas não são invenções.

Por que o mundo iria querer parar de propósito? Por que deixaríamos o comércio quebrar, o desemprego crescer, a economia encolher, se não é por uma verdade científica?

Não largo a casa há três meses, a não ser para ir ao supermercado semanalmente. Lavo as embalagens inteiras antes de colocar na despensa.

Não há varanda no apartamento, o sol banha a sala das 8h às 10h da manhã, onde tomamos café.

Caminho somente por trinta minutos no hall do prédio, nos desertos da claridade. Não entro em elevador acompanhado.

Não tenho recebido amigos em casa. Recuso convites para encontros mesmo com máscaras e com distanciamento. Estou com a minha esposa por vinte e quatro horas, cozinhando, lavando roupas e limpando a casa. Dispensei a minha empregada doméstica durante o período, mantendo o pagamento de seu salário. Há infiltração na parede e não chamei nem o hidráulico. Não venho visitando os meus pais de 80 anos desde início de março. Meus filhos permanecem distantes, e finjo que estão comigo em longas chamadas de vídeo.

Se fico adoecido, por qualquer mal-estar, eu me socorro com encomendas da farmácia. Não me dirijo a nenhum pronto-socorro.

Não me disponho a correr, a andar de bicicleta. Não frequento praças, calçadões e parques. Às vezes ligo o meu carro na garagem para a bateria não morrer. Não compareço ao salão, não corto o cabelo, não reclamo da imobilidade da aparência. Conto com o privilégio do trabalho em home office.

Rezo toda a noite por uma vacina.

Será que sou só eu?

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