As doenças mentais têm suas peculiaridades. A primeira é o estigma social. Temos dificuldade em entender que se quando nossa perna dói é preciso ir ao médico, quando nos dói “até a alma” também é preciso ir ao especialista. É por isso que ainda existem pessoas que resistem a falar de seus problemas e procurar ajuda, justamente por esse medo do que “os outros dirão”.

Nesse sentido, são várias as personalidades que quiseram falar de suas próprias doenças mentais para sensibilizar sobre o assunto e acabar com o estigma. Um dos últimos e melhores exemplos foi o vídeo da conversa entre o Príncipe William e Lady Gaga. Mas não são os únicos, e são vários os famosos que tomaram partido para lutar contra o estigma da doença mental.

Transtorno por estresse pós-traumático

Segundo a Sociedade Espanhola de Psiquiatria (SEP), é definido como a angústia posterior a um processo traumático inesperado, que dura mais de seis semanas, e até mesmo meses ou anos. É o caso da própria Lady Gaga. A cantora escreveu uma carta como parte de suas ações para a campanha da Fundação ‘Born this way’, em que relatava que “lutei durante algum tempo sobre quando, como e se deveria revelar meu diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Depois de cinco anos de procura das respostas à minha dor crônica e à mudança que senti em meu cérebro, finalmente estou suficientemente bem para contá-lo. Existe uma boa dose de vergonha que acompanha a doença mental, mas é importante que se saiba que há esperança e uma oportunidade de recuperação”. Por sua vez, o Príncipe William insiste que é o estigma mais profundo para os homens. “Todos iremos passar por momentos difíceis em nossas vidas, mas os homens sentem especialmente a necessidade de fingir que tudo está bem, porque admitir isso a seus amigos pode fazer com que pareçam frágeis. Posso afirmar que isso na verdade é um sinal de força.”

Transtorno bipolar

“Me sinto muito saudável em relação à minha loucura” —essa era uma das frases usadas por Carrie Fisher como brincadeira, com a intenção de normalizar seu diagnóstico de transtorno bipolar, doença que ajudou a tirar do armário. “Alguém com transtorno bipolar passa por mudanças severas de estado de espírito. Essas mudanças duram normalmente várias semanas ou meses e vão além do que a maioria de nós vivencia”, explicam representantes da Sociedade Espanhola de Psiquiatria. Outra das mulheres que ajudou a abrir a conversa em torno do transtorno bipolar é a atriz e cantora Demi Lovato que argumentou que “viver bem com o transtorno bipolar é possível, mas é preciso ter paciência, trabalhar e é um processo contínuo”.

Ansiedade e pânico

O ator Ryan Reynolds comentou certa vez seus problemas com a ansiedade e até que a origem poderia estar em sua infância. “Nosso pai era duro, não era fácil. Acredito que a ansiedade pode ter começado ali, tentando encontrar formas de controlar os outros, tentando me controlar. Nesse momento, não percebi. Eu era só um menino nervoso.” Ellie Goulding também falou sobre seus ataques de pânico, explicou que “certas vezes não podia ir à escola a menos que estivesse deitada em um carro com uma almofada sobre o rosto. Costumava bater em mim mesma por isso.” Algo que corresponde à definição da SEP de ansiedade: “Um sentimento normal de temor que todos experimentamos quando deparamos com situações de ameaça ou difíceis. Pode nos ajudar a evitar situações perigosas, alertando-nos e motivando-nos a enfrentar os problemas. Mas se esses sentimentos de ansiedade são fortes demais, podem até nos impedir de fazer as coisas que queremos”.

Transtorno obsessivo-compulsivo

Para entender essa doença, os psiquiatras relatam que “algumas pessoas têm pensamentos ou ideias que aparecem em sua mente mesmo que não queiram. Esses pensamentos com frequência parecem não ter sentido ou são desagradáveis; chamam-se obsessões. As compulsões são atos que as pessoas pensam que têm de fazer inclusive quando não querem”. Em relação a isso, Lena Dunham mostrou a realidade do TOC dentro e fora da tela, quando relatou que seus pais a colocaram em terapia quando diagnosticada com um surto de ansiedade, caracterizado por pensamentos intrusivos, ou seja, um transtorno compulsivo obsessivo. Não é a única: o jogador David Beckham também teve receio de afirmar que “sofro de uma desordem obsessiva-compulsiva que me obriga a colocar os objetos em linha reta ou em pares”.

Depressão

“Todo mundo pode se sentir triste às vezes, mas se diz que alguém sofre depressão quando esses sentimentos não desaparecem rapidamente ou pioram tanto que interferem na vida diária”, afirmam os representantes da SEP. Em relação a essa patologia, no ano passado o cantor Kid Cudi escreveu um post sincero em seu Facebook, para explicar que “minha ansiedade e a depressão governaram minha vida durante todo o tempo de que me lembro e nunca saio de casa por isso. Não consigo fazer novos amigos por isso. Não confio em ninguém por isso e estou cansado. Mereço ter paz. Mereço ser feliz e sorrir”. Outro dos rostos conhecidos que se atreveu a expressar-se em torno de sua depressão é a modelo e atriz Cara Delavigne, que escreveu um tuíte de forma simples e direta. “Sofro de depressão e trabalhei como modelo durante um período bastante difícil de autodesprezo.”

Transtorno alimentares

Zayn Malik, cantor do One Direction, declarou ter passado por problemas de alimentação, um transtorno que normalmente afeta as mulheres, mas de que os homens também sofrem. O cantor afirmou que poderia estar até dois ou três dias sem comer, “perdi tanto peso que fiquei doente. A carga de trabalho e o ritmo de vida, ao lado das pressões e tensões de tudo que acontece em uma banda, afetaram gravemente meus hábitos alimentares”. Assim, os representantes da SEP lembram que “muita gente jovem que não tem sobrepeso quer ser mais magra. Com frequência tentam perder peso fazendo dieta ou pulando refeições. Para alguns, as preocupações sobre o peso se tornam uma obsessão”. Outro personagem que também afirmou ter sofrido problemas alimentares foi Victoria Beckham, em sua biografia Learn to fly.

A importância das mensagens

Sobre este tema, o professor Julio Bobes, presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria insiste que é preciso cuidado com as mensagens, já que “o exibicionismo social não é necessariamente terapêutico”, e por isso destaca como positivos aqueles que se concentram em “mostrar como pessoas que se destacam em alguma medida expliquem que, apesar desses problemas, são se viram limitadas, para mostrar que ter uma doença mental não lhes torna incapazes de se desenvolver.”

Em relação a se muitas vezes essa mensagem pode ser distorcida e se pensar que a fama está associada a esse mal-estar mental, Bobes afirma que “a fama não produz depressão”, já que de outra forma a incidência seria muito maior. No entanto, é possível afirmar que “haja uma má gestão do sucesso que pode produzir dificuldades psicológicas”. É por isso que a mensagem chave é explicar que as doenças mentais ocorrem em todos os ambientes sociais e que não devem ser uma limitação para se alcançar objetivos de vida.

De fato, como afirma o presidente da SEP, realmente existe um aumento dos diagnósticos das doenças mentais mais comuns, em suas formas mais leves e moderadas. A explicação, segundo o especialista, está em que “as pessoas vão com mais frequência consultar seu especialista, e há mais acesso, mais recursos e mais proximidade”, também em parte graças a que a divulgação das mesmas faz com que as pessoas procurem ajuda antes que sua patologia se agrave, o que também melhora os prognósticos.

TEXTO DESILVIA C. CARPALLO
FONTEElpais
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