Obrigado, mãe, por não ter me tornado a sua única fonte de felicidade. Obrigado por ter uma vida diferente da do meu pai para ampliar as minhas escolhas e poder me espelhar.

Obrigado, mãe, por trazer os seus amigos para a residência, assim entendi que as amizades completam a família.

Obrigado por não ter sido submissa e calada. Um dia ruim acaba e não compromete a semana.

Obrigado, mãe, por ter saído com as suas amigas para beber e se distrair, assim eu recebia duas vezes o seu beijo de boa-noite: em sua partida, acordada, e em seu retorno, dormindo.

Obrigado, mãe, por defender seus pontos de vista, suavizando os argumentos ao piscar com o olho direito. Toda discussão era uma aula de paciência – esperar o outro falar para, então, opinar.

Obrigado, mãe, por dedicar alguns dias das férias para viajar como casal e namorar – foi o tempo que desfrutei da companhia de meus avós.

Obrigado, mãe, por nunca me abandonar e também nunca me sufocar, por ficar perto e não em cima me vigiando e me avaliando. Obrigado, mãe, por trabalhar fora e me ensinar o que é saudade.

Obrigado, mãe, por ser feliz com o meu pai e se separar quando já estava triste. Não odeio o casamento por sua causa.

Obrigado, mãe, por não me anular sendo perfeita, mostrando que explodia, que errava, pedia desculpa e seguia adiante.

Obrigado, mãe, por chorar e não criar a solenidade das lágrimas, sei chorar bonito como você e nunca me escondo no quarto, a tristeza precisa da casa inteira e um pouquinho de música ao fundo. Mas obrigado também por não censurar a algazarra da alegria, a gargalhada é a nossa percussão, ríamos alto até perder o ar.

Obrigado, mãe, sinceramente, por não exigir que a minha irmã sentasse de perna fechada, de boca fechada, de alma fechada, somente porque era menina. Não passou o machismo pela atitude.

Obrigado, mãe, por entregar os presentes com cartãozinho, a dedicatória continua sendo o melhor embrulho das surpresas.

Obrigado, mãe, por confiar em mim e não reservar assuntos para contar apenas quando fosse adulta, pois segredos viram traumas. Você costurava as minhas roupas e as minhas falhas de um jeito invisível, por dentro, conversando pontualmente de igual para igual, jamais guardando mágoas e rancor, jamais descontando alguma raiva atrasada.

Obrigado, mãe, por cobrar tarefas de casa, não arrumar a minha cama e não acobertar a minha preguiça, assim aprendi que nem sempre posso fazer o que quero.

Obrigado por ser chata e dar conselhos quando desejava não pensar e não prever as consequências.

Obrigado por estar no meu caminho, impedindo a passagem, quando estava enfurecido e decidido a aprontar. Seu bloqueio doeu como uma porta na hora, agora vejo o quanto significava um abraço.

Obrigado, mãe, por não entrar em meu computador e não mexer em minhas gavetas para descobrir quem sou. Não precisamos de investigação, bastava oferecer a palavra. Absorvi o respeito pela privacidade, não sofro de desconfiança, não acho que as pessoas procuram me enganar.

Obrigado, mãe, por não me anular com a sua presença, com a sua dublagem, não falando por mim, não sentindo por mim, não sofrendo por mim.

Obrigado, mãe. Se hoje sou independente e dono de mim é que você me antecedeu com o seu exemplo.

Do livro “Cuide dos Pais antes que seja tarde” – Grupo Editorial Record

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Fonte:Fabrício Carpinejar

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