“Bastiana, já comeu?”, pergunta Francisco à mulher, que, da cama, consente acenando a cabeça. O marido observa o gesto com um pouco de dificuldade, virando-se levemente para o lado.

Francisco de Alencar, 102 anos, sempre preocupado com a saúde e bem estar da esposa, Sebastiana Matos, de 101 anos, carinhosamente chamada por ele de “Bastiana”.

O casal de aposentados, casados há 82 anos, estão internados no mesmo quarto do Hospital Regional de Samambaia.

O carinho e o amor um com o outro, chamou a atenção dos profissionais de saúde que fazem o atendimento no hospital público do Distrito Federal.

E desde a juventude são inseparáveis. Na segunda-feira, ela precisou ser internada por causa de complicações causadas pelo diabetes. A distância parece ter abalado o apaixonado marido. No dia seguinte, foi ele quem deu entrada no hospital sofrendo de insuficiência nos rins.

Os dois foram internados em alas diferentes, porém não cansavam de perguntar um pelo outro.

Meu avô queria saber se a “Bastiana” dele estava bem, se ainda estava ali.”

“Isso sensibilizou muito quem estava ao redor”, conta Jane Ester Alencar, 42 anos, neta do casal.

A equipe da unidade de saúde estava diante de um impasse. Na emergência, onde os dois estavam, a ala destinada à Sebastiana era a amarela, mas Francisco deveria permanecer na vermelha.

Os 15 metros que os separavam tinham se transformado em um enorme abismo para eles.

Percebendo a situação, a direção do hospital quebrou o protocolo e decidiu colocar os dois no mesmo quarto. Desde quinta-feira (19), Sebastiana e Francisco passam boa parte do tempo de mãos dadas, com as camas lado a lado.

“Bastiana já comeu?”

Mais debilitada por causa dos sintomas da doença de Alzheimer e, às vezes, inconsciente, Sebastiana expressa poucas reações. No entanto, mesmo com dificuldade em se movimentar, o marido não deixa de se preocupar.

Até que a morte nos separe? 

Engana-se quem pensa que falar sobre a morte é problema para os dois, revela Miriam Araújo, 66 anos, uma das filhas. O assunto é discutido sem medos.

O único receio deles é um deixar o outro para trás. Eles sempre falam que um não vai embora na frente do outro. Meu pai diz que sempre ora para que minha mãe não morra antes dele, para ele não ficar sozinho e para que ele não vá antes dela, para não a deixar só”, conta Miriam, concordando com a contradição da frase.

Leia também: Por que é tão difícil, para as mulheres empáticas, encontrar o homem certo?

O começo

Essa história de amor inseparável começou na década de 1930, no interior de Goiás. Francisco havia saído do Maranhão com quase nada na mochila.

Era um menino pobre em busca de sobrevivência nas fazendas goianas, quando conheceu Sebastiana. Morena, bonita, rica, filha de fazendeiros. Não estava ao seu alcance, Francisco pensou. Talvez por isso, no começo, os dois ficaram apenas na tímida troca de olhares.

Vez ou outra, quando cansava da lida com a enxada, ele entrava na cozinha da casa grande para beber um pouco de água do pote de barro.

Nesses momentos, Sebastiana dava um jeito de aparecer na cozinha também. “Mas ele achava que era impossível se casar com ela. ‘Como podia uma menina rica querer um menino pobre de saco nas costas’, era o que ele repetia”, lembra a caçula, Ana Araújo, 56.

Mas quando o amor entre os dois ficou claro, ela não hesitou em enfrentar o pai para se casar com homem da sua vida. Com a ajuda de uma tia dela, numa quarta-feira, fugiram juntos da fazenda. No sábado, estavam casados.

Não foi fácil. os dois sobreviveram da lavoura, moraram em muitos interiores no Brasil afora.

Tiveram 12 filhos, a família tem quase 80 netos e oito bisnetos. Nessa linda história de amor, Francisco diz ter só um desejo: mais tempo para viver ao lado da sua amada. Por quê? “Casar com ela foi a melhor coisa”, responde. E volta-se de novo para a companheira de vida: “Bastiana, você sabe que eu te amo, né?”

Informações G1

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