Por Aitor Marin

Neil Strauss (Chicago, 1969) ganhava muito bem a vida entrevistando músicos de rock para a revista Rolling Stone, até que deu uma guinada na carreira e no início dos anos 2000 se aproximou de homens que se autoproclamavam os mais mulherengos do mundo. Seu interesse pelo assunto não era apenas profissional: afirma que se tratava mais de “reverter minha falta de sorte”.

Passou dois anos convivendo e viajando por todo o mundo com eles, e o milagre aconteceu. “Desenvolvi a confiança necessária para falar com as mulheres que me atraíam e, pela primeira vez na vida, a habilidade para atraí-las”, afirma.

Toda essa experiência foi narrada em seu livro O Jogo – A Bíblia da Sedução (publicado no Brasil em 2008), um trabalho polêmico e um sucesso de vendas que marcou um ponto de inflexão em sua vida: “Tornou-se tão tristemente célebre que eclipsou tudo o que tinha feito antes. Então, meu desejo por sexo não destruiu minha vida, mas se tornou minha profissão”.

Alguém poderia pensar que aqui começa a história: depois de meia vida perseguindo roqueiros com legiões de groupies, Strauss se tornou um escritor de sucesso que, segundo ele, tem qualquer mulher que desejar ao alcance. Mas não. Os felizes fade outs só existem no cinema, e tudo o que veio depois deu para um novo livro, The Truth: An Umconfortable Book About Relationships (A Verdade: Um Livro Desconfortável Sobre Relacionamentos) – que está saindo agora na Espanha, ainda em edição no Brasil) –, no qual o jornalista e escritor  arremete contra a monogamia. A culpa foi do amor.

“Desenvolvi a confiança necessária para falar com as mulheres que me atraíam e, pela primeira vez na vida, a habilidade para atraí-las”

Ele conta em suas páginas que se apaixonou, embarcou em um relacionamento de casal e não demorou a ser infiel. Isso não foi um problema até que foi descoberto. Naquela época, Strauss poderia ter pedido perdão e jurado que nunca mais faria isso, mas preferiu embarcar em uma nova aventura: “Tentar descobrir em qual ponto tanta gente se equivoca uma e outra vez no que diz respeito às relações pessoais e ao casamento, e se existe uma maneira melhor de viver, amar e fazer amor”. Ou o que é o mesmo: por que insistimos em negar a evidência de que a infidelidade faz parte da nossa natureza. Teria sido mais fácil dar algumas flores à namorada ressentida, mas seu empenho para se justificar resultou em outro livro tão polêmico quanto o primeiro, que entre muitas outras coisas conta sua passagem por uma clínica especializada na cura do vício em sexo.

Strauss respondeu às nossas perguntas por e-mail enquanto navegava em uma balsa para a Noruega. Concentrado em escrever as respostas, acabou perdendo sua parada, pelo que lhe peço desculpas. “Esta entrevista foi um pouco como ter sexo ruim”, reclamou. Juro que é a primeira vez que acontece comigo.

Pergunta. Às vezes, parece que o prazer não está tanto no sexo, mas em contá-lo, e se é em um livro, muito melhor.

Resposta. O bom sexo é muito mais prazeroso do que escrever ou ler sobre ele. Mas com o sexo ruim, sim, pode até chegar a ser curativo escrever sobre ele. Embora seja melhor não experimentá-lo de nenhuma maneira.

P. A leitura do livro dá a sensação de que há circunstâncias em que ser infiel é inevitável. É assim?

R. Acredito que a infidelidade não depende das circunstâncias. Tem mais a ver com questões psicológicas subjacentes. Algumas pessoas usam a traição como resposta insana a um problema ou a uma carência do parceiro. Outros traem mesmo estando em relacionamentos que aparentemente funcionam perfeitamente por causa das “amarras emocionais” da infância. Por exemplo, se um dos pais usa a criança para satisfazer suas próprias necessidades emocionais, quando a criança crescer, as relações afetivas podem ser sufocantes para ela e usará a traição para escapar dessa asfixia.

Em A Verdade, Strauss argumenta que “graças às tecnologias, agora temos mais opções para conhecer pessoas e termos um caso do que em qualquer outro momento da história da humanidade, com uma infinidade de homens e mulheres separados por um simples clique ou um cartão de crédito, o que faz da fidelidade ou mesmo qualquer compromisso inicial um desafio ainda maior”.

P. As novas tecnologias levam inevitavelmente à morte da fidelidade?

R. É verdade que as redes sociais, os aplicativos de encontros e a tecnologia em geral dificultam a situação para uma pessoa sexualmente compulsiva, mas a honestidade não tem nada a ver com a tecnologia. Na verdade, o que acontece com a tecnologia é que ela torna mais fácil você ser pego. Então, se alguém culpa a tecnologia pela sua infidelidade, é melhor sair correndo.

Em outro ponto no livro, o jornalista conta a história de uma mulher que estava se submetendo a um tratamento de mudança de sexo para se tornar homem. “Ela me disse que assim que começou a terapia com testosterona, de repente entendeu os homens, porque passou a ter vontade de se jogar em tudo que balançava”, diz Strauss.

P. Por que grande parte das mulheres não tem dificuldade para ser fiel?

R. Em minha opinião, acredito que isso não é mais verdade hoje em dia. As estatísticas mudaram nos últimos anos. No passado, os homens traíam mais. Agora os dois traem por igual.

P. Realmente é apenas desejo sexual ou procuramos nos apaixonar uma e outra vez?

R. Há muitas razões pelas quais procuramos um parceiro. Mas a principal é mais que o amor, mais que o sexo e inclusive mais que a pura procriação. Afinal, há casais que não estão apaixonados, que não fazem sexo ou que não querem ter filhos. Buscamos um parceiro porque uma vida sem intimidade é uma vida não vivida.

Fonte: El Pais

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