O sucesso do show da Netflix O Gambito da Rainha, lançado no final de 2020, contribuiu para que o xadrez se tornasse extremamente popular, com centenas de milhares de pessoas a descobrirem e redescobrirem o seu interesse por este jogo que conta já com mais de 1500 anos de história.

À semelhança do que acontece com outros esportes e competições profissionais, o mundo do xadrez foi também desde sempre dominado por homens. O enxadrista russo Garry Kasparov, considerado unanimemente um dos melhores jogadores de todos os tempos, chegou até a dizer publicamente por diversas vezes que as mulheres não tinham capacidade para jogar de igual para igual com os homens, aconselhando-as a esquecerem o xadrez e focarem em “ter filhos”.

De lá para cá, a sociedade evoluiu drasticamente e a opinião de Kasparov certamente mudou, ainda mais depois que em 2002 foi derrotado por Judit Polgar, numa partida que ficará para a história. E se a série da Netflix foi crucial para discutir o papel da mulher em espaços dominados por homens, vale a pena também falar num nome que, apesar de muita gente desconhecer, teve um papel extremamente relevante neste tema. Esse nome é Jennifer Shahade.

Xadrezista e feminista

Nascida na Pensilvânia, em 1980, Jennifer Shahade mostrou desde cedo um grande entusiasmo pelo xadrez por influência do seu pai, o xadrezista e FIDE Master, Mike Shahade. Curiosamente, tanto Jennifer como seu irmão mais velho Greg mais tarde superariam o pai, alcançando os títulos de Woman Grandmaster e International Master, respectivamente.

Jennifer ganhou atenção da mídia ao se tornar a primeira mulher a vencer o U.S. Junior Open aos 18 anos de idade. Esse foi apenas o início daquilo que viria a ser uma carreira de sucesso, na qual ganharia por duas vezes o U.S. Women’s Chess Championship e se estabeleceria como uma das mais influentes jogadoras de xadrez da atualidade.

Jennifer poderia ter sido apenas uma jogadora que lutava pela igualdade de gênero por meio do seu talento e das suas vitórias no tabuleiro. Mas ela quis ser muito mais que isso, e usou seu reconhecimento para participar ativamente no projeto feminista. Publicou dois livros onde aborda diretamente este assunto e tenta inspirar mais mulheres a explorar o xadrez competitivo.

Além disso, a xadrezista é presença assídua em várias conferências centradas no empoderamento da mulher e anfitriã do podcast Ladies Knight, em que conversa com outras jogadores de elite e personalidades femininas de diversas áreas.

Mas não é tudo! Jennifer é ainda cofundadora da 9 Queens, uma organização sem fins lucrativos que oferece aulas de xadrez a jovens desfavorecidos ou em situação de risco (com um especial foco em meninas), e diretora do US Chess Women Program, que utiliza o xadrez como ferramenta para o empoderamento de mulheres de todas as faixas etárias.

Uma mulher multifacetada

Mais recentemente, Jennifer passou a dividir a sua atenção entre os tabuleiros de xadrez e as mesas de poker – outro universo dominado pelos homens. E com o sucesso! Venceu um grande evento em 2014 e conseguiu um excelente resultado no WSOP Main Event de 2016. A sua paixão pelo poker também a levou a criar um outro podcast chamado The Grid, juntamente com o marido Daniel Meirom, no qual convidam jogadores profissionais e discutem jogadas dramáticas.

Esta é uma mulher de enorme sucesso a quem o sucesso não bastou. Daí que tenha também se empenhado em abrir portas para o sucesso de outras mulheres, inspirando-as a perseguir os seus sonhos mesmo quando esses sonhos implicavam entrar em áreas dominadas quase que exclusivamente por homens.

A vida fascinante da multifacetada Jennifer Shahade é uma excelente lição daquilo que deve ser a luta pela igualdade de gênero. Quando se pensa em mulheres inspiradores vêm imediatamente à conversa nomes como Simon de Beauvoir, Oprah Winfrey e Michelle Obama. Jennifer Shahade com certeza merece estar entre elas.

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