Por: Martha Medeiros

Não é fácil. Colocar um cilindro nas costas e confiar que haverá oxigenação suficiente enquanto se está a dezenas de metros de profundidade, em alto mar, e que de lá conseguiremos voltar ilesos. Nunca tive coragem, mas admiro os que têm. Não os considero aventureiros, seria despeito por vê-los realizar algo que jamais conseguirei. Respeito-os e sigo com a cabeça fora d´água, arriscando no máximo um passeio de snorkel, que permite que eu veja alguns peixes coloridos, mas não a vastidão do oceano.

Saindo da literalidade dos mergulhos marítimos e entrando no universo das metáforas: eu mergulho, mas de outro jeito. Desço com prazer até as camadas subterrâneas da minha existência, das quais fazem parte as histórias que escuto, leio e assisto, as informações variadas que recebo e todos os sentimentos que me desconcertam, tantos. O mundo em sua real dimensão – amplo e complexo – é imperceptível para os que se acomodam ao pé de pato e ao snorkel, ainda abusando da metáfora.

Quando se trata de dar consistência à vida, peixes coloridos não bastam. Quero a densidade do oceano, quero as criaturas que permanecem em seus esconderijos, sem vir à tona. Quero o mistério e a luz própria que também há na escuridão. Quero o que me faz sentir medo e encantamento, misturados. Quero a verdade, o habitat dos seres estranhos, a realidade que não se revela sob o sol. Quero tocar no sagrado, no invisível, no que há de mais sublime e secreto, naquilo que não se entrega fácil a nossos olhos.

“Não agrega nada à sociedade”, foi o comentário rasteiro que li outro dia sobre o filme “A filha perdida”, mas poderia ser sobre qualquer outra obra profunda, sujeita a julgamentos morais. Quem nasceu para pé na areia não alcança. Não é demérito, apenas despreparo. Não recebeu o treinamento da literatura, da filosofia, da psicologia. Ficou sem oxigenação para interpretar subtextos, silêncios, angústias universais. Não chega lá embaixo, onde se enxerga o que não se vê.

Assim no cinema, assim em tudo, incluindo a política que não preza o aprofundamento de nada. Muitos se contentam com o superficial e a história mastigada, mesmo que fake – melhor assim, fica mais fácil de ser digerida. Compramos falsos heróis e narrativas toscas, que não exigem muito da sensibilidade e menos ainda de um raciocínio elaborado. Mas a grande ausência é mesmo a da coragem, que tantas vezes nos abandona. Um casamento fracassado que a gente finge que ainda tem valor, um relacionamento fraturado que a gente faz de conta que não dói, um destino desperdiçado que a gente não enfrenta nem muda por preguiça, ou para não contrariar o status quo.
Não, não é fácil mergulhar.

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