Por Fabrício Carpinejar

O que as pessoas mais querem é um romance à moda antiga. Mesmo quem não viveu isso tem expectativa do laço assumido, do namoro do portão e do interfone, de andar de mãos dadas, de ir devagar para se conhecer de verdade, com a verdade, pela verdade.

Sem tinder, sem happn, sem aplicativos, sem o açougue das fotos, sem o sexo pelo sexo, sem o fast food da carne, sem as mentiras das conquistas: uma relação baseada na sinceridade. Com as dores e as delícias daquilo que se é.

Há uma nostalgia pela amizade, pela intimidade, pelo aceno na despedida, pelo pudor das perguntas, pela timidez das respostas, pelas bochechas ruborizadas, pelo cavalheirismo das cartas e dos bilhetes, pela surpresa das caixas de bombons e das flores.

Ninguém mais sofre de vergonha atualmente. Manda-se nudes para estranhos com imponderável facilidade. Corpos são expostos gratuitamente nas redes sociais para se obter mais likes, seguidores e comentários.

E a vergonha é fundamental. Ter vergonha é demonstrar que o respeito é importante, que o outro é importante. Ter vergonha é se resguardar, é pedir desculpa mesmo quando não se errou, é valorizar a linguagem pelo medo de perder a relação, é pensar melhor para não magoar.

Há uma procura por uma história com caligrafia e letra pessoal, por um contato que não seja apenas rápido e informal pelo WhatsApp.

Há um anseio pela privacidade de casal, patrimônio da ternura, necessário para manter segredos e partilhar confissões.

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Há uma falta danada do flerte, do cortejo, da sedução lenta pelas palavras, do cumprimento bem dado, do suspiro na solidão do quarto após um beijo, de ser exclusivo de alguém, de desejar e se sentir desejado.

Há um apelo para se resgatar a educação, a gentileza, a preocupação com os acontecimentos da alma.

Há uma carência pelo enamoramento do sofá, longe do atalho da cama, pelo convívio familiar, em saborear a risada do par antes de escutar o seu gemido.

Há um quebranto para ter a delicadeza de volta, o cuidado mútuo de um compromisso declarado, a confiança que vai se adquirindo a cada conversa.

Há uma busca por rituais da aproximação: primeiro aprender o nome e o sobrenome, a escrever o nome e o sobrenome, para só depois merecer saber o apelido.

Há uma vontade pela véspera, pelo exercício da esperança: sonhar para conhecer, conhecer para sonhar.

Há uma saudade do flerte, de usar mais as sobrancelhas, reparar mais nos olhos, admirar as omoplatas e os tornozelos.

Há uma urgência inexplicável no ar pela autenticidade, por mulheres e homens dispostos a optar pela fidelidade e renunciar o acúmulo insidioso de opções e de vidas digitais.

Estamos tão atentos ao consumo consciente, em manter uma alimentação pura, desprovida de agrotóxico, a comprar produtos que não apresentem origem duvidosa, a realizar exercícios pela longevidade e saúde, natural que se pretenda estender o controle para os afetos, e defender relacionamentos mais saudáveis.

Bate hoje um fraco pela franqueza acima de tudo. Para uma relação dar certo, devemos não mentir no início. E como se mente para agradar, para garantir a transa, para impressionar. Como existem impostores ostentando perfeição, fazendo propaganda enganosa, maltratando a fé de quem persegue o casamento.

Dificultar um pouco a história é levar a sério o amor. Quem não entende a paciência do encontro não ficará para receber a recompensa da dedicação.

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