Por Antônia no Divã

Eu tenho uma raiva de todas vezes em que comentei com alguém que fiz terapia durante 10 anos e a pessoa me perguntou: “mas o que tanto de errado tinha contigo?” “Nada”, eu respondia sempre que me sentia um pouco mais insolente, “eu fiz terapia para lidar com o resto das pessoas que não fazem”, concluía segurando a minha luva de pelica.

É realmente irônico pensar que quem procura auxílio para as dores da mente e da alma, é por vezes, visto como maluca. Desequilibrada. Quer dizer, você tem um problema, seja ele qual for, e decide buscar atendimento para se sentir melhor. Aí vai lá o cidadão que tá há anos cultivando ranços e traumas que se enraizam em todas as suas decisões e interações com o mundo, dizer que terapia é frescura de gente chiliquenta. “Esse teu câncer é falta de laço”. “Tua enxaqueca é muito tempo livre nas mãos”.“Hemorroida é coisa de direita. Covid de esquerda!”. “Reumatismo? Falta de Deus!” Já pensou se toda doença fosse tratada como um chilique? A nossa expectativa de vida seria 1/3 da de hoje.

Veja o meu “chilique”, por exemplo, que começou quando eu tinha 20 anos, e era tão frescura que me dava taquicardia, cortava o ar dos meus pulmões, me fazia acordar de cara no chão, do meio do supermercado. E o arroz nem tava o preço que tava. Mas lá estava eu, acordando no corredor do hortifruti, agarrada numa couve e cercada de gente que nunca vi, assim, “pra chamar atenção”. O meu “chilique”, eu descobri mais tarde, era pânico, e eu lembro de ter vergonha durante anos, porque na época que fui diagnosticada, doenças mentais oscilaram nos ouvidos menos empáticos (ou elucidados) entre um exagero digno de internação e a tolice digna de sarro.

Lembro também que naquele tempo eu costumava me perguntar como aquilo não era uma doença digna de respeito, se nada como ela, havia me levado tantas vezes ao hospital. Eu nunca tinha quebrado o braço. Eu sequer lembro de ter carregado minhas gripes para além dos limites do meu quarto. Nenhum acidente ou emergência no meu histórico médico. Mas com o pânico era diferente. Eu não recebia aviso. A temperatura não subia pra mostrar que tinha algo errado. Eu não espirrava antes de parar de respirar. A minha instabilidade variava de um simples desconforto a uma inquietação assustadora em questão de segundos. Eu me sentia perdida. Desesperadamente sufocada. E estranhamente solitária.

“Estranhamente” eu digo, porque os estímulos dos meus ataques eram múltiplos, mas nunca sem a intervenção alheia. Hora era a humilhação de uma antiga chefe, outro episódio era acionado pelo abuso físico de um ex-namorado, uma vez foi por causa do assédio moral-sexual de um gerente, diversas situações foram em razão da insegurança provocada pelo divórcio horrendo dos meus pais, e claro, outras mais recentes, por causa da tristeza da perda do meu irmão. Note que dificilmente os meus “chiliques” aconteciam sozinhos, mas na maioria das vezes, tinham outras mãos segurando o gatilho. As minhas interações com o mundo externo, eu me dei conta, eram o que desequilibram as funções internas mais viscerais da minha existência – minha habilidade fundamental de respirar e de me manter consciente.

Não era falta de afeto, apoio, estrutura, medicação, inteligência emocional ou Deus. A minha saúde mental havia se tornado frágil, e tratar disso exigia fazer a escolha mais difícil, e única que realmente importou na minha vida. A escolha de olhar pro lado mais obscuro da cabeça. Enfrentar a parte mais dolorida da alma. Escolher não acomodar os traumas, mas colocar eles todos para fora e inventar um jeito de ressignificar tudo em aprendizado e perdão. Não ao lado de uma amiga, da mãe, ou daquela tia que joga búzios. Mas acompanhada de uma profissional, uma guia experiente, segurando a minha mão na estradinha sinuosa que é o auto-conhecimento. Para seguir sempre em frente, e sair do outro lado das curvas do caminho, mais forte, mais tranquila, e principalmente, mais segura.

Todo mundo precisa de um terapeuta porque saúde mental exige segurança. Porque afinal, quem escolhe se tratar, sabe bem que não é por auto-indulgência, e que precisa ter coragem e perseverança para melhorar. E não há vergonha alguma em querer melhorar.

Nem que seja pra aprender a segurar o ímpeto de enfiar a mão na cara de gente que devia estar num divã, mas segue dizendo que é frescura.

Todo mundo precisa de um bom terapeuta. Isso ou um bom advogado.

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