Por Elder Dias

Os rapazes enganam a mulher, a humilham, ficam orgulhosos do feito e mandam para os grupos de WhatsApp. A galera no Brasil faz a festa. E eis então um clube dos tiozões virtuais

Todo mundo sabe quem é o tiozão do pavê. É aquele sujeito que invariavelmente ataca em ocasiões de celebrações e intimidade familiar, armado de piadinhas infames. Pode não ser necessariamente o tio, pode ser o avô bonachão, a cunhada alegrinha, até o sobrinho crescidão e ainda meio bocó. E a pessoa tem esse apelido porque conta da piada tão célebre quanto antiga:

— É pavê ou pa cumê?

E, claro, ele – normalmente sozinho – dá aquela gargalhada em seguida. Gargalhada seguida dos sorrisos amarelos dos presentes, por compaixão, perplexidade, vergonha alheia ou as três alternativas anteriores. Para a família de tiozão do pavê foi assim no Natal do ano passado bem como no churrascão para a matriarca nos idos de 1996.

Pois em meio à Copa da Rússia, com quase duas décadas de século 21 e tecnologia até para marcar pênalti puxando a orelha do árbitro, tem torcedor brazuca aplicando um remake do tiozão do pavê. Eles abordam as nativas e se comunicam (provavelmente em inglês) para as fazer passar por idiotas, por pensarem bradar palavras de incentivo em português enquanto na verdade gritam expressões como “quero dar para os brasileiros” ou algum palavrão sexualizado. Daí, os rapazes ficam orgulhosos do feito e mandam para os grupos de WhatsApp. A galera que ficou no Brasil faz a festa. Um clube dos tiozões virtuais.

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Poderia ser só isso, uma piada sem graça e sem noção. Mas não, é também sórdido. Talvez não dê em nada na Rússia, onde esta semana havia um deputado propondo resolver brigas de rua adotando um limite de integrantes para cada grupo. Mas no Brasil, sim, esse tipo de assédio seria algo alcançável pela lei, no mínimo, por danos morais.

Porém, mais do que isso, esse tipo de acontecimento revela uma faceta podre desses brasileiros: uma lei de Gérson tipo exportação, a disposição para “dar a volta”, para mostrar um tipo de esperteza que nada mais é do que covardia genuína. Não há nada de errado em a mulher – russa, alemã, polonesa, coreana ou amapaense – falar que quer “dar” para o brasileiro, desde que ela faça isso por livre escolha. Sem escolha, obviamente, não pode ser lícito. Parece ser algo bem simples.

Não tem nada de “mimimi” (expressão criada e gerida para suprir a carência de argumento). Mulheres merecem respeito em qualquer parte da terra. Achar que é piti dos “politicamente corretos” é só uma forma de tentar calar a voz feminina, hoje felizmente com o recurso das redes sociais para denunciar, repercutir e repudiar essas situações aberrantes.

Daí que, folheando o jornal do dia, me deparo com um caso em que o marido matou a mulher, saiu de carro e depois provocou um acidente com um caminhão para se matar. O nome disso? Feminicídio seguido de suicídio. Feminicídio – palavra usada ao se constatar que uma mulher foi morta em uma circunstância na qual o homem não suportou a ameaça de perder a suposta posse do que achava ser seu. Feminicídio, expressão que é tratada como “frescura” por quem considera ser isso apenas um homicídio comum.

Quem tiver mais do que o tico e o teco no cérebro saberá fazer a correlação do parágrafo acima com o restante do texto. Quem não conseguir, bem, esse merece ouvir a piada do tiozão do pavê no próximo Natal. E, com certeza, vai rir até doer a pélvis, sem o alcance de qualquer culpa.

Fonte: Estádio das Coisas

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